Fonte da Vida

Fonte da Vida
The Fountain
96 min – 2006 (USA/CAN)
Dir.: Darren Aronofsky
★★★

Fico na dúvida se Aronofsky estava confortável ao dirigir um filme que combina tantos elementos díspares como Fonte da Vida. Em sua crítica, Roger Ebert alega que gostaria de um dia, no futuro, assistir ao director’s cut. Bom, estamos em 2017 e aparentemente a versão de 96 minutos lançada nos cinemas em 2006 era mesmo a desejada pelos seus criadores. Ou quase.

A produção envolvendo o terceiro longa-metragem de Darren Aronofsky passou longe da tranquilidade. Após ter sido cancelado pelos estúdios da Warner Bros., o filme precisou que seu diretor e colaboradores corressem atrás de outras fontes de financiamento, reescrevessem todo o roteiro e cortassem metade do orçamento. Rodado no Canadá (em oposição à Austrália, onde ficavam as locações originais), Fonte da Vida apresenta um universo visual completamente diferente de tudo o que vimos em Pi e Réquiem para um Sonho. Para começar, a trama se passa em três épocas distintas: dos conquistadores e inquisidores espanhóis do século XVI, passando pelo presente de um cientista obcecado pela cura de uma doença que assola sua companheira, até a viagem de um “astronauta” pelo espaço num futuro incerto. A matemática visual confeccionada pela equipe de fotógrafos e técnicos do departamento de arte e de efeitos especiais é bastante complexa e digna de aplausos, apesar de ficar bem evidente, em determinados momentos, como as alterações no roteiro e o orçamento encolhido prejudicaram o conjunto da obra. Se a representação do Império Espanhol remete a um Drácula de Bram Stoker menos inspirado, a espaçonave metafísica do “astronauta do futuro” exibe ares de O Pequeno Príncipe e seu Planeta particular.

Ok, alguns diriam que comparações com 2001: Uma Odisseia no Espaço fariam mais sentido, mas acho melhor deixar essa ideia de lado. Não que o filme não carregue suas questões filosóficas. Muito pelo contrário. Aronofsky e Ari Handel rechearam o roteiro com indagações existencialistas (“a morte é uma doença”) e metafísicas (“você me levou através do tempo”), além de terem tratado com bastante honestidade as emoções de um ser humano em contato com a morte. Isabel, interpretada com delicadeza por Rachel Weisz, executa um trajeto em direção à aceitação da própria morte, enquanto Tommy, vivido por um Hugh Jackman vibrante, caminha ao lado dela em busca das mesmas respostas. O grande problema, entretanto, e ao contrário da companheira, é a sua dificuldade em descobrir as perguntas corretas.

A despeito de alguns diálogos expositivos (“ela terá morrido até lá”, diz Tommy para a sua chefe em dado momento do primeiro ato), o filme é conduzido com uma fluidez inacreditável para o tipo de estilo narrativo ao qual se propõe. Certamente isso se deve aos usuais colaboradores de Aronofsky, sobretudo Matthew Libatique, responsável pelo brilhante jogo de iluminação que confere singularidade a cada plano do filme (reparem no uso das luzes diegéticas e como elas frequentemente evocam as estrelas pelas quais o “astronauta” percorre no espaço). O designer de produção James Chinlund, o montador Jay Rabinowitz e o compositor Clint Mansell também estão de volta, fundamentais na articulação entre os protótipos construídos, as elegantes rimas visuais e as canções sempre melancólicas e, desta vez, mais contidas, apesar de sua presença talvez mais constante do que o necessário ao longo das sequências.

A memória e o passado são temas importantes aqui, e as escolhas visuais da direção corroboram a verve inventiva de Aronofsky. Os diálogos entre Tommy e Isabel, por exemplo, que atravessam tempo e espaço, são representados com muita criatividade através de raccords envolvendo a presença de elementos em comum (o anel, a árvore, a tatuagem no dedo de Tommy). A máxima “morte como um ato de criação” é defendida com unhas e dentes, e a resolução da trama é menos importante do que a libertação dos personagens. A vida eterna é uma busca presente nas três instâncias da narrativa. Nos resta, portanto, aceitar o conselho sussurrado em nossos ouvidos ao longo de todo o filme.

“Termine”, disse a árvore.

31 de agosto de 2017

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Sobre Leandro Luz

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